Home » Notícias » Brasil » Rio de Janeiro » Região dos Lagos » Araruama » O QUE O ÍNDIO NÃO CONSEGUE ME RESPONDER – Marcos Serpa

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Ainda moleque, lembro bem da primeira vez em que vi uma figura na TV que me fascinou. Era o início dos anos 1980, e o que eu sabia dele é que era um índio – de verdade – e que tinha um gravador, daqueles de fita k7, e andava com ele em punho pelos corredores do Planalto Central, em Brasília, para “para registrar tudo o que o branco diz” e constatar que as autoridades, na maioria das vezes, não cumpriam a palavra. O que, para mim ainda era um espanto. Eu nunca iria desconfiar que a palavra daqueles senhores não valia nada, se não fosse o cacique Mário Juruna me provar com suas gravações.

Aquele índio de óculos e gravador se tornou uma espécie de celebridade do momento, à época. Eu achava aquilo tudo sensacional. Anos depois, ele acabou se elegendo deputado, se meteu em um monte de rolos, e mais tarde, morreu na miséria.

Juruna não seria tão original, talvez, em 2015. Hoje em dia, quase todo mundo tem celular que filma e todos sabem como funcionam as promessas das autoridades. Já não deveríamos alimentar tantas expectativas. Mas, ô povo tonto que somos!

Moro em uma cidade em que o prefeito, que também é o empresário mais rico da região, resolveu entrar para a política de uma hora para outra. Sua esposa se elegeu deputada recentemente, após a campanha mais ostentativa que já vi. A única rádio local é uma emissora AM em que ele subsidia a maior parte da programação, e o jornal de maior circulação (cujo dono não tem muita noção do que é ser jornalista, apenas de ser vendedor de publicidade), e que fazia oposição antes do prefeito assumir o poder, mudou de opinião e posição com a velocidade de quem recebe um cheque.

Atualmente, o que sobrou da oposição local engatinha alguns passos rumo às eleições do ano que vem, ainda intimidada com o poderio econômico da situação. Até com processo na Justiça contra o Facebook (o único veículo, vamos chamar assim, em que se fala o que realmente acontece na cidade) o prefeito entrou – e perdeu, lógico. Foi afastado durante meses por suspeita de fraude em licitações. Voltou ao cargo mas continua respondendo ao processo.

Alguém me diz o que eu, jornalista por natureza e ofício (não estou me gabando disso), estou fazendo aqui? Ainda não sei explicar… mas um dia desses, me emputeci ao ler no Facebook que uma conhecida minha reclamava porque sua mãe estava, às 23h30m, na fila de marcação de consultas do PAM para tentar uma vaga, junto com outras cem pessoas, a maioria, idosas. Resolvi aproveitar o dom da insônia para ver aquilo com meus próprios olhos e registrar com as lentes da filmadora. As imagens, revoltantes, geraram milhares de visualizações na internet, centenas de compartilhamentos, e foram o assunto do dia na Câmara de Vereadores e nas redes sociais.

Achei que tinha feito jus à minha parcela de descendência indígena/jurunística, e mais uma vez, aquilo que o ‘homem branco’ dizia – que iria “resolver os problemas da saúde da água pro vinho” – comprovadamente, era mentira.

Mesmo depois disso tudo, nada mudou. As vózinhas continuam varando a madrugada nos bancos de plástico, para, quem sabe, conseguirem uma marcação de consulta médica dez horas depois.

A produção do SBT teve acesso ao vídeo e fez uma reportagem sobre o assunto hoje. Como profissional, sempre me passou pela cabeça ver isso exibido no telejornal de uma grande emissora. E pela primeira vez, tive essa oportunidade. Mas confesso que foi muito mais frustrante do que prazeroso, porque se tratava de um fato que a gente vive e assiste na pele, que é o descaso e despreparo do poder público quanto ao atendimento da saúde. E dessa vez não adianta jogar a culpa nos médicos, enfermeiros, etc… É politicagem local e incompetência misturadas. Criam-se (ou aumentam-se) as dificuldades para ‘vender’ as facilidades.

E agora, o que fazer, cacique Juruna, já que não pretendo me eleger deputado (nem vereador!) e muito menos, morrer na miséria?

PS. Ok, amigos cinegrafistas, as imagens estão uma bosta, mas eu não sou um profissional ruim, não. É porque eu tava bolado de chegar alguém da prefeitura pra tentar entrar numa comigo…rs

Links relacionados: ASSISTA AO VÍDEO DA REPORTAGEM SOBRE A SAÚDE EM ARARUAMA NO SBT RIO DE 02 DE ABRIL – Marcos Serpa

PAM de Araruama – 19 de março de 2015 – 00:30 – Fila para marcação de consultas médicas

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